Rebelião contra Zuckerberg em colégios dos EUA

EL PAÍS • 18 de julho de 2019

Pais de alunos pedem a retirada de um programa da fundação do criador do Facebook que funciona através de telas, quase sem a presença do professor


Dois adolescentes diante de um computador em uma escola secundária no Estado da Califórnia.LEONARD ORTIZ (GETTY)

O protesto começou em Cheshire (Connecticut, Estados Unidos), um desses condados residenciais que atraem as famílias pela qualidade de suas escolas públicas. A oferta era tentadora. Um novo modelo para as aulas, a última tendência em educação. Seriam pioneiros. Haveria computadores grátis para todos. Lições sob medida para cada aluno, ensino personalizado para maximizar cada potencial. O Vale do Silício chegava às escolas deste tranquilo distrito da Costa Leste. Mas não tardaria a voltar por onde veio.

“Era um programa piloto chamado Summit Learning. Quando começamos a ver como funcionava, nos rebelamos. Começou nos grupos de pais, e logo virou um movimento em toda a cidade. Mal havia interação entre professores e alunos. Os pais começaram a se preocupar com o destino dado às informações sobre a criança colocada no sistema”, recorda a educadora Mary Burnham, uma das líderes da mobilização. “Recolhemos assinaturas, mas inicialmente os colégios não nos escutavam. Então um pai viu que as crianças tinham tido acesso a conteúdo inapropriado, explicitamente sexual. Em um dia, somaram-se 500 assinaturas. O distrito escolar já não podia mais ignorá-lo. Após as férias do Natal, já tinham tirado o programa”, prossegue.

A educação está há anos na mira do Vale do Silício, que já transformou os setores do comércio varejista, entretenimento, comunicação, indústria editorial, música e jornalismo. A ideia é que a tecnologia poderia realizar o velho sonho da educação personalizada, inacessível de outra maneira por falta de recursos. E o Summit Learningestá na vanguarda desses esforços.

Em 2014, Priscilla Chan, mulher do fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, com quem tem uma fundação, visitou uma escola secundária da Califórniaque participava de uma pequena rede chamada Summit (“topo”), atraída pelo sucesso acadêmico do projeto. Lá se usava uma ferramenta on-line para proporcionar educação sob medida. Basicamente, a plataforma mostra aos alunos todas as lições que devem aprender no curso, e estes as abordam na ordem que desejarem. Em vez de ter o professor em pé diante da classe, a ideia é fomentar o trabalho entre os alunos, e os docentes mantêm tutorias semanais individualizadas.

Chan compartilhou a descoberta com Zuckerberg, que ficou impressionado e ofereceu uma equipe de engenheiros do Facebook para continuar desenvolvendo a ferramenta e espalhá-la gratuitamente em todo o país. “Quando você visita uma escola assim, parece o futuro, parece uma start-up”, disse Zuckerberg em uma conferência em Lima em 2016. Confiava, acrescentou, em “modernizar” a maioria das escolas dos EUA em uma década, e depois levar o modelo ao exterior.

Desde então, segundo o The New York Times, a Chan Zuckerberg Initiativedestinou quase cem milhões de dólares ao Summit. Hoje, segundo seus próprios dados, a plataforma atende 72.000 alunos em 380 escolas norte-americanas. Mas as queixas cresceram junto com a sua expansão.

Cheshire foi só o começo. Em um colégio do Brooklyn, Nova York, em novembro passado, os alunos abandonaram as aulas em sinal de protesto e escreveram uma carta a Zuckerberg em que lhe diziam que o programa “exige muitas horas em classe sentados na frente do computador” e “elimina grande parte da interação humana”. No condado de Indiana, Pensilvânia, depois que um estudo da universidade revelou que 70% dos alunos não queriam o Summit, o distrito escolar recuou. No Kansas, há poucos meses, alunos e pais organizaram protestos que chegaram à primeira página do The New York Times.

Compartilhar estratégias

“Quase toda semana há pais que entram em contato comigo, de diferentes partes do país, para ver se posso ajudá-lo a escrever uma petição, ou compartilhar estratégias com eles”, conta Leonie Haimson, copresidenta da Coalizão de Pais pela Privacidade dos Alunos. “Temos um grupo de discussão de pais de 19 Estados que estão brigando por isso, além dos que já brigaram no passado. Claramente é um problema enorme.”

Os pais descontentes se queixam tanto da qualidade do currículo que a plataforma oferece como da quantidade de tempo que os alunos devem passar na frente das telas, em vez de ouvindo um professor. “Quando meu filho vinha para casa, eu olhava seu computador e me dava conta de que tinha passado horas no YouTube, Facebook e Vine. Passava o dia na frente da tela. Reunia-se com seu tutor só uma vez por semana. No princípio os alunos ficaram muito animados, mas no final do curso meu filho, que era um dos melhores em matemática, estava chorando porque não sabia fazer os exercícios”, disse Bethany Berry, mãe de um aluno do condado de Lincoln, no Kentucky, que introduziu o Summit neste ano letivo e enfrenta uma crescente reação dos pais.

Também há preocupação com a gestão da privacidade da informação fornecida pelos alunos, levando-se em conta que o principal financiador da plataforma criou um império à base de reunir e capitalizar economicamente dados de seus usuários. O Summit afirma que a privacidade é uma de suas “mais altas prioridades”. “Estamos profundamente comprometidos com a privacidade”, diz Catherine Madden, porta-voz do Summit Learning. “Os dados dos alunos não são vendidos e são usados apenas para fins educativos. Sem exceções.”

A rebelião, argumenta Madden, foi tratada de forma exagerada. “Estamos em mais de 380 escolas, e só em algumas poucas houve protestos”, afirma. Nos “casos isolados” em que os alunos tiveram acesso a “conteúdo inapropriado”, diz a porta-voz, este “foi retirado”. Também relativiza as queixa sobre o excessivo tempo de tela: “A tecnologia é só uma ferramenta, e os alunos não deveriam passar muito tempo na frente da tela. Se passam, é que o sistema não está bem implementado.”

“NÃO ESTAMOS AQUI PARA FAZER DINHEIRO”

Os críticos desconfiam das supostas intenções altruístas de Zuckerberg e o Summit Learning. No próximo semestre, ele vai se separar juridicamente da rede de escolas da Califórnia e adotará a forma de uma organização sem fins lucrativos, em cujo conselho terá lugar Priscilla Chan – uma operação que, segundo os críticos, agravará a falta de transparência de que se queixam e que a Summit nega. “Não há um modelo de negócio”, insiste Catherine Madden, porta-voz do Summit Learning, garantindo que isso não vai mudar. “Não estamos aqui para ganhar dinheiro, estamos para apoiar os estudantes e os educadores. Os colégios nos procuram para se inscrever no programa, então obviamente há necessidade desse apoio.”

Madden diz que os protestos ocorrem porque “a mudança é difícil, especialmente na educação”. “Aprendemos várias lições sobre o que é preciso para apoiar os colégios”, reconhece. “No futuro, não só daremos apoio geral às escolas como também apoio personalizado em função de suas necessidades. Também vamos dar oportunidades aos pais para transmitir seus comentários, diretamente e pessoalmente, à nossa equipe. Queremos continuar assegurando que os pais sejam aliados neste trabalho.”

Noticia publicada no site EL PAÍS, em 30/06/2019, no endereço eletrônico: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/06/29/tecnologia/1561832269_832729.html


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