Para aumentar matrículas no ensino superior é preciso investir na infância

REVISTA ENSINO SUPERIOR • 29 de outubro de 2020

Fonte da Notícia: REVISTA ENSINO SUPERIOR

Data da Publicação original: 29/10/2020

Publicado Originalmente em: https://revistaensinosuperior.com.br/investimento-infancia-diploma/

investimento infância

O Brasil demorou para priorizar o investimento em educação e com isso oportunizar mínimos direitos a seus cidadãos, fator histórico esse que reflete negativamente em diversos desafios atuais, um deles é o ingresso no ensino superior de grande parte da população que não consegue concluir sequer a educação básica. Ao longo do século passado, por exemplo, a taxa de analfabetismo brasileira era uma das maiores do mundo.

“Acredito que o grande erro histórico foi não ter colocado as crianças na escola desde o início do século 20 e não ter feito todos lerem e aprenderem. Os reflexos hoje em dia estão na baixa produtividade, alta criminalidade, população com problemas de saúde”, explicou o economista e pesquisador do Insper, Náercio Menezes Filho no segundo dia do 22° Fnesp, organizado pelo Semesp e esse ano de forma online.

O economista salientou que é impressionante como o acesso ao ensino superior sempre foi muito restrito no Brasil.

“Até 1960, a gente tinha 1% da população com diploma superior, a elite. A partir de 1990 começamos a avançar e teve um crescimento rápido até pela expansão das instituições privadas e reformas do Fies e ProUni”, lembrou.

Matrículas estagnadas

Segundo dados do Instituto Semesp, em 2000, 12,3% da população tinha diploma superior. Em 2017, o acesso passou a fazer parte da vida de 34,3% dos brasileiros. Só que nos últimos anos as matrículas na educação superior quase não crescem.

“Desde 2008, 2009, o número de concluintes no ensino médio está parado, obviamente a grande fonte do ensino superior vem do ensino médio, além dos que já se formaram há mais tempo. Só que essa fonte está secando”, alertou.

Curioso que o diploma ainda tem papel decisivo em uma contratação de emprego, no valor do salário que tende a ser até três vezes maior. Diante dessa realidade, Náercio Menezes fez a seguinte pergunta ao público do evento: “por que número de concluintes no ensino médio estagnou? Porque temos um problema na educação básica. A questão é de igualdade de oportunidade, e aí a entra a infância”.

Investimento na infância

O pesquisador, que é coordenador no Insper da Cátedra Ruth Cardoso e professor na Faculdade de Economia e Administração da USP, defende algo que parece óbvio, mas que precisa ser debatido para os formuladores de políticas públicas de fato apoiarem: mais investimento na primeira infância, especialmente nas famílias mais pobres.

“Todas as crianças nascidas aqui precisam ter as mesmas oportunidades. Problemas na infância geram problemas no desenvolvimento, dificuldade de aprendizagem que se acumula ao longo da vida”, destacou, visando a construção de uma nova geração com mais igualdade e cuja escola apoie no desenvolvimento de habilidades socioemocionais como resistência e resiliência para cada pessoa ter coragem e vontade de trilhar seu caminho e conseguir fechar ciclos como a educação média e superior.

“É necessário choque de gestão na educação básica. Precisamos de uma reformulação do ensino básico e acho que o Fundeb é uma forma não só de aumentar recursos, mas de melhorar a gestão e apontar por meio de avaliações de resultados o que redes estaduais municipais estão efetivamente fazendo para melhorar a aprendizagem e apresentar os recursos disponíveis”.

Evitar retrocessos

Em tempos de crise econômica e de saúde com a pandemia, Naércio Menezes também defendeu a importância de programas de crédito para aumentar e reter matrículas na educação superior. “Temos novas propostas de Fies na mesa e acho que o Estado deve sim continuar investindo em políticas para incentivar o acesso ao ensino superior”.

O economista sabe que a covid-19 acentua a desigualdade e aí entra a necessidade de um plano que busque recuperar o que foi perdido e diminuir as diferenças, por exemplo, do acesso à educação entre pobres e ricos e de brancos e negros. “No Pará, por exemplo, somente 40% das crianças de escolas públicas tiveram atividades a distância durante a pandemia e nas particulares 80%”.

No ensino superior também houve e ainda há dificuldades de acesso. “30% dos alunos não tiveram acesso a atividades durante a pandemia e isso pode gerar evasão”.

A educação a distância também foi citada pelo pesquisador. Atualmente, usando o último Enade, a nota dos alunos de EAD é menor em relação ao presencial. O grande desafio é fornecer um EAD que tenha a mesma qualidade de aprendizado que o presencial”, disse, até mesmo por saber do avanço da modalidade híbrida.


Restrito - Copyright © Abrafi - Todos os direitos reservados