Por que pesquisadores defendem início de aulas mais tarde após experiência de lockdown

G1 • 11 de janeiro de 2022

Fonte da Notícia: G1
Data da Publicação original: 10/01/2022
Publicado Originalmente em: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2022/01/10/por-que-pesquisadores-defendem-inicio-de-aulas-mais-tarde-apos-experiencia-de-lockdown.ghtml

A pandemia não tem sido nada fácil para adolescentes, com o fechamento prolongado das escolas, as dificuldades nas aulas online e os impedimentos de se socializar pessoalmente com outros jovens da mesma idade.

Mas é possível que parte desses adolescentes tenha tido ao menos um ganho importante durante os meses mais duros da quarentena: a chance de dormir mais tempo, uma vez que não precisavam acordar cedo para ir à escola.

E dormir bem é um fator crucial para a saúde e o desenvolvimento na adolescência – argumento principal de médicos e especialistas que defendem que as aulas presenciais de jovens não devem começar tão cedo pela manhã, para permitir que os jovens tenham mais horas de sono (entenda mais abaixo).

Uma pesquisa feita na Suíça, recém-publicada na JAMA Network Open, avaliou o sono de 3,6 mil estudantes da etapa equivalente ao ensino médio, com idade média de 16 anos, durante os meses iniciais de lockdown no país – entre 13 de março e 6 de junho de 2020, quando as aulas suíças migraram para o ambiente remoto.

Ao comparar o tempo de sono desses adolescentes com um grupo de controle, que havia sido mensurado em 2017, ou seja, durante um período típico de aulas, os pesquisadores do Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade de Zurique concluíram que, durante o lockdown pandêmico, os estudantes puderam dormir até 75 minutos a mais por dia de semana (nos fins de semana, não houve diferenças significativas entre os dois grupos).

Esse período adicional de sono foi associado a melhores indicadores de saúde, segundo os pesquisadores.

"Os participantes dormiram significativamente mais e apresentaram indicadores melhores de saúde, com menos consumo de cafeína e álcool do que antes da pandemia", diz a pesquisa.

Um problema detectado pelos estudiosos é que esses ganhos de saúde trazidos pela oportunidade de dormir mais foram ofuscados pela incidência maior de tristeza, isolamento, sedentarismo e depressão em muitos adolescentes durante a pandemia, sobretudo na época mais restritiva da quarentena.

Ou seja, por um lado os adolescentes entrevistados na Suíça relataram estar mais descansados e cheios de energia. Por outro, se sentiram mais solitários e tristes por não poderem estar presencialmente com os amigos.

Como conclusão, de qualquer modo, os pesquisadores do Centro de Desenvolvimento Infantil defendem que as descobertas em torno do sono extra na pandemia podem ajudar as escolas a traçar suas políticas em caso de futuros fechamentos das aulas presenciais.

E os estudiosos vão além, dizendo que "as descobertas do estudo mostram claramente os benefícios de as aulas escolares começarem mais tarde pela manhã, para que os jovens possam dormir mais", nas palavras do principal autor da pesquisa, Oskar Jenni, professor de Desenvolvimento Pediátrico na Universidade de Zurique.

O sono dos adolescentes brasileiros

Não é possível saber ao certo se resultados semelhantes de tempo adicional de sono teriam sido identificados entre adolescentes brasileiros durante a quarentena e as aulas online – lembrando, também, que muitos jovens de baixa renda daqui foram precocemente empurrados ao mercado de trabalho para ajudar no sustento de suas famílias por conta do desemprego e da crise econômica, e muitos outros não conseguiram ter acesso regular ao conteúdo do ensino remoto.

Em 2020, uma pesquisa feita em conjunto pela Fiocruz e pela UFMG identificou que 48,7% dos adolescentes de 12 a 17 anos do país se sentiam, na época, preocupados, nervosos ou com mau humor, na maioria das vezes ou sempre.

Eles passaram a consumir mais doces e alimentos ultraprocessados, e também se tornaram mais sedentários – o que certamente não contribuiu para sua saúde.

A pesquisa não abordou horas de sono, mas sim a qualidade deste – que piorou para 36% dos jovens brasileiros.

Mas, quando os jovens têm chance de dormir mais – e acordar um pouco mais tarde –, os benefícios à saúde já estão evidentes do ponto de vista científico, explica à BBC News Brasil a neurologista Andrea Bacelar, presidente da Associação Brasileira do Sono.

"O sono tem impacto no humor, na ansiedade, na depressão e na sociabilização dos adolescentes", diz ela.

A biologia do sono