Por Paulo Chanan "Enamed 2026: o novo ciclo bate à porta"

ABRAFI • 02 de março de 2026

Fonte da Notícia: ABRAFI
Data da Publicação original: 02/03/2026
Publicado Originalmente em: https://www.abrafi.org.br/

*Por Paulo Chanan

Enamed 2026: o novo ciclo bate à porta

A primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) deixou marcas profundas no ensino superior privado. A forma como o processo foi conduzido, a definição tardia de parâmetros essenciais e a divulgação dos resultados com forte viés negativo produziram insegurança jurídica, danos reputacionais e um ambiente de instabilidade regulatória. Portanto, é legítimo que as instituições ainda estejam tentando se reorganizar diante de tudo o que tem acontecido.

Contudo, passado o momento mais crítico da reação institucional, é preciso que cada instituição, especialmente aquelas que obtiveram desempenho insatisfatório, faça uma pausa estratégica e olhe para dentro. Independentemente das controvérsias que envolvem o Enamed 2025, e que deverão se estender ainda por algum tempo, a segunda edição já bate à porta.

Sim, outubro está logo ali. E o cenário pode ser ainda pior. Circula pelos corredores da Esplanada dos Ministérios o burburinho de que a aplicação deste ano pode ser antecipada para agosto, em razão do calendário eleitoral. Caso isso se confirme, o tempo de preparação será ainda mais curto, exigindo respostas ainda mais rápidas, organizadas e tecnicamente consistentes por parte das instituições de educação superior.

Além disso, há o risco concreto de que a edição de 2026 venha acompanhada de medidas regulatórias ainda mais severas. Se 2025 já trouxe supervisão estratégica e anúncios de restrições, é plausível supor que o próximo ciclo avaliativo seja tratado com ainda maior rigor. Isso impõe às instituições uma postura proativa; não há espaço para estagnação.

Sabemos que o cenário real está distante do quadro alarmista que parte da cobertura midiática tentou consolidar junto à opinião pública. A maioria dos cursos apresentou desempenho satisfatório, e o setor privado acumula histórico consistente de qualidade, tanto nas avaliações externas institucionais e de curso quanto nas avaliações do Enade. Ainda assim, minimizar os resultados negativos ou permanecer exclusivamente no embate sobre uma edição que já ocorreu não é uma postura institucionalmente responsável.

Primeiro, porque estamos a poucos passos da próxima aplicação do exame. Segundo, porque, em relação à edição de 2025, a Associação Brasileira das Faculdades (ABRAFI), em conjunto com a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), já adotou as medidas cabíveis ao recorrer ao Poder Judiciário para questionar a utilização imediata e punitiva dos resultados.

A iniciativa judicial foi necessária para resguardar a legalidade, a previsibilidade e a credibilidade do sistema de avaliação. Contudo, é igualmente importante reconhecer que o debate jurídico, por mais legítimo e relevante que ele seja, não substitui a responsabilidade acadêmica. Assim, enquanto a discussão segue na esfera jurídica, é importante que as instituições olhem para seus próprios processos, preparem seus planos de ação e avancem naquilo que está sob sua governabilidade: a melhoria contínua da formação oferecida, que pode refletir em uma ascensão de conceitos no próximo Enamed.

É hora de reunir coordenações de curso, Núcleos Docentes Estruturantes, preceptores, Comissão Própria de Avaliação e corpo docente para analisar, no menor nível possível de detalhes, o desempenho individual e global dos estudantes, identificar fragilidades curriculares e no corpo docente, revisar metodologias de ensino e fortalecer a integração entre teoria e prática. O Enamed não pode ser tratado apenas como um exame externo; ele precisa ser compreendido como sinalizador de pontos que demandam aperfeiçoamento também na estrutura interna dos cursos e na relação destes com os ambientes externos de aprendizagem.

Mais do que reagir à política pública, as instituições precisam assumir o protagonismo na melhoria contínua da formação médica. Isso significa investir em simulados estruturados, revisão de conteúdos alinhados às Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs), capacitação docente, monitoramento sistemático de desempenho e acompanhamento mais próximo dos concluintes. Significa, sobretudo, transformar o desconforto atual em oportunidade de evolução acadêmica.

Também é fundamental comunicar com clareza para se obter maior engajamento de toda a comunidade acadêmica com o exame. Estudantes e professores precisam entender o contexto regulatório; seus papéis na produção dos resultados; as implicações, tanto para os estudantes quanto para a instituição, em caso da obtenção de conceitos não proficientes; as disputas jurídicas em curso; e, ao mesmo tempo, a importância de um esforço coletivo para elevar os indicadores.

Está evidente, portanto, que, a despeito de todas as críticas (legítimas e fundamentadas) à condução do Enamed 2025, a preparação para 2026 precisa começar imediatamente. Não se trata de validar equívocos metodológicos, mas de reconhecer que a avaliação continuará integrando o ambiente regulatório da formação médica, e influenciando decisões acadêmicas e institucionais. A expectativa, naturalmente, é que os próximos ciclos ocorram com maior maturidade técnica, regras previamente estabelecidas e processos mais transparentes e ajustados.

O momento exige maturidade institucional. Defender segurança jurídica e aprimorar o projeto pedagógico não são movimentos excludentes; são complementares. Enquanto as entidades representativas e os setores jurídicos das instituições atuam para assegurar que o exame respeite princípios legais e técnicos, a gestão do curso de Medicina de cada instituição precisa trabalhar para que seus estudantes estejam mais conscientes sobre os critérios e as consequências do exame, bem como mais comprometidos com seus resultados.

Seja em outubro ou em agosto, apenas as instituições que estiverem preparadas conseguirão responder com solidez à próxima edição do Enamed. O desafio está posto. Cabe a cada uma transformar a adversidade em impulso para evoluir, fortalecer seus cursos e demonstrar, com resultados concretos, que a qualidade da formação médica no Brasil é muito maior do que as narrativas atuais apressadas e corporativistas sugerem.


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