ABRAFI • 26 de junho de 2026
Fonte da Notícia: ABRAFI
Data da Publicação original: 26/06/2026
Publicado Originalmente em: https://www.abrafi.org.br/
*Por Paulo Chanan
Educação e os gargalos que ameaçam o futuro do Brasil
Os resultados da PNAD Contínua Educação 2025, recém divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), trazem alguns motivos para comemorar, como a menor taxa de analfabetismo da série histórica (4,9%). Contudo, também evidenciam desafios que o Brasil não pode mais adiar. Especialmente quando o olhar se volta para o ensino médio e para a educação superior, os números revelam um cenário que exige atenção urgente dos formuladores de políticas públicas.
Em uma análise atenta, o que o cenário apresentado pelo IBGE revela é que a educação brasileira enfrenta sérias dificuldades justamente nas etapas que deveriam funcionar como ponte para a formação profissional, para a cidadania e para a ascensão social.
Segundo o levantamento, 80,6% dos jovens de 15 a 17 anos frequentavam ou haviam concluído o ensino médio em 2025. Embora o resultado represente avanço em relação ao ano anterior, é bem abaixo da meta de 90% prevista no novo Plano Nacional de Educação (PNE 2026-2036). Tão preocupante quanto é constatar as desigualdades: entre os homens, o percentual é de 77,4%, enquanto entre as mulheres alcança 84%; entre pretos e pardos, o índice é de 77,8%, contra 84,9% entre os brancos.
Na outra ponta, o alto percentual de abandono escolar resulta em números assustadores. São 7,7 milhões de jovens de 14 a 29 anos que não concluíram o ensino médio. Para se ter ideia do tamanho do desafio, esse volume representa mais de duas vezes a população do Uruguai ou iguala a quantidade de habitantes do Paraguai. E justamente na fase da vida em que os indivíduos deveriam estar consolidando sua trajetória escolar e se preparando para ingressar na educação superior ou no mundo do trabalho de forma qualificada.
As razões para o abandono ajudam a compreender a complexidade do problema. A necessidade de trabalhar continua sendo o principal motivo apontado pelos jovens. Entretanto, chama a atenção o fato de 25,6% simplesmente afirmarem não ter interesse em estudar. Em um contexto marcado pela disseminação de narrativas de enriquecimento rápido, pela valorização de trajetórias excepcionais e pela falsa impressão de que o sucesso pode ser alcançado sem qualificação formal, muitos jovens acabam subestimando o papel transformador da educação.
É evidente que existem histórias de ascensão econômica associadas ao empreendedorismo, à produção de conteúdo ou a outras atividades que ganharam visibilidade nos últimos anos. Contudo, essas trajetórias são exceções. A regra observada em praticamente todas as nações desenvolvidas é de que quanto maior a escolaridade, maiores as oportunidades de emprego, renda e mobilidade social. No Brasil, segundo o relatório Education at a Glance 2025, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os brasileiros que concluem a graduação ganham, em média, 148% a mais do que aqueles que têm somente ensino médio.
Esse dado chama a atenção para outro contingente estratégico que precisa ser alcançado pelas políticas públicas educacionais: em 2025, 57,4% da população com 25 anos ou mais já havia concluído a educação básica. Contudo, entre as pessoas de 18 a 24 anos, apenas 24,5% estavam cursando ou haviam concluído o ensino superior.
Estamos falando de milhões de brasileiros que já superaram a barreira da educação básica e que, portanto, estão habilitados a ingressar na educação superior. Muitos deles, entretanto, permanecem distantes das graduações por razões financeiras, geográficas ou até mesmo por desconhecimento das oportunidades existentes. Trata-se de um público que precisa ser considerado nas estratégias nacionais de expansão do acesso ao ensino superior.
Essa discussão ganha ainda mais relevância diante das metas estabelecidas no novo Plano Nacional de Educação para o decênio de 2026 a 2036. O país pretende elevar para 40% a proporção de jovens de 18 a 24 anos matriculados ou graduados na educação superior. A ambição é legítima, e o desafio é enorme.
Dado esse cenário, uma conclusão é inevitável: o Brasil não alcançará as metas do novo PNE apenas ampliando vagas. É indispensável construir uma política articulada que ataque simultaneamente os gargalos da educação básica, reduza a evasão no ensino médio, fortaleça programas de permanência escolar e amplie os mecanismos de acesso à graduação. Será igualmente importante recuperar o valor simbólico da educação como instrumento de transformação individual e coletiva.
Os números divulgados pelo IBGE mostram que o país avançou, mas também deixam claro que o ritmo atual é insuficiente diante dos compromissos estabelecidos. Se quisermos alcançar a taxa de 40% de jovens na educação superior até 2036, será preciso impedir que milhões abandonem a escola antes mesmo de concluir o ensino médio e, ao mesmo tempo, criar condições para que aqueles que já concluíram essa etapa possam enxergar a graduação como um caminho possível, acessível e desejável.
Mais do que uma meta educacional, estamos diante da necessidade de articulação de uma grande estratégia de desenvolvimento nacional. O futuro do país, e de cada brasileiro, depende da nossa capacidade de encarar esses dados, desde já, com a ambição, a responsabilidade e a seriedade que eles exigem.