Expectativas frustradas e os desafios para o Enamed 2026

ABRAFI • 12 de maio de 2026

Fonte da Notícia: ABRAFI
Data da Publicação original: 12/05/2026
Publicado Originalmente em: https://www.abrafi.org.br/

*Por Paulo Chanan

Expectativas frustradas e os desafios para o Enamed 2026

O edital do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) deste ano colocou no centro do debate um tema de extrema relevância para a educação superior brasileira: a manutenção de um ciclo vicioso de expectativas frustradas. Após todas as dificuldades enfrentadas na edição de 2025, em especial no que diz respeito à condução do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), acreditávamos que a edição deste ano correria de forma mais tranquila. Ao que tudo indica, estávamos enganados.

Nos últimos anos, ficou evidente a necessidade de aperfeiçoar os instrumentos de avaliação para que cumpram, de fato, o papel formativo instituído lá em 2004 pelo Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes). Essa evolução, contudo, precisa ser feita sem o comprometimento da previsibilidade e da segurança das instituições e dos estudantes. Mas esse não foi o cenário encontrado em 2025 para as Medicinas e, ao que tudo indica, neste ano persistem desafios estruturais que não podem ser ignorados.

É inegável que houve avanços na organização operacional do exame. O detalhamento de fluxos, responsabilidades e prazos demonstra um esforço de aprimoramento da gestão do processo. No entanto, esse progresso não se reflete com a mesma intensidade na dimensão mais sensível de qualquer avaliação: a definição clara dos critérios que orientarão a apuração dos resultados. Ao estabelecer com precisão quem será avaliado, mas não explicitar de forma completa como se dará essa avaliação, o edital mantém uma lacuna que compromete a transparência do sistema.

Essa ausência de clareza não é um detalhe técnico. Especialmente no Enamed, onde os resultados das avaliações dialogam diretamente com processos de supervisão que impõem medidas cautelares severíssimas, conhecer previamente a metodologia de cálculo, os parâmetros de desempenho e os critérios de validação dos resultados é condição essencial para garantir legitimidade. Sem isso, cria-se um ambiente em que as instituições são chamadas a cumprir rigorosamente suas obrigações, mas não dispõem de todos os elementos necessários para compreender o alcance e os efeitos da avaliação a que estão submetidas.

O principal entrave para isso está na forma como as informações são disponibilizadas pelo órgão responsável pela avaliação. Ao longo das últimas décadas, mesmo sem a dureza de aplicar medidas cautelares nos primeiros resultados dos exames, consolidou-se a prática de se assegurar a previsibilidade do processo. Desde 2025, parece não ser mais assim; e esse cenário não apenas dificulta o planejamento acadêmico, como também aumenta o grau de incerteza.

No ano passado, instituições e estudantes de Medicina foram para a prova sem que parâmetros essenciais tivessem sido previamente divulgados. Não havia clareza sobre desempenho satisfatório e nem sobre a metodologia aplicada na avaliação dos resultados. As consequências associadas aos resultados não haviam sido informadas. Os critérios de desempenho só foram divulgados após a aplicação do exame. Os estudantes sequer sabiam sobre o uso dos resultados como parâmetro de proficiência. Até hoje, instituições de educação superior e egressos dos cursos de Medicina precisam lidar com os estragos decorrentes de tudo isso.

Portanto, a expectativa do setor privado de educação superior era de que, após toda a turbulência enfrentada na edição passada, os órgãos gestores tivessem se organizado para garantir uma aplicação mais segura e consistente neste ano. No entanto, a divulgação do primeiro edital trouxe a percepção de que as dificuldades vivenciadas desde o ano passado podem se repetir.

Embora essa tenha sido a prática adotada nos últimos 20 anos, a divulgação das informações em duas etapas não se justifica mais. Está evidente que a reformulação promovida no Enade, incluindo a criação do Enamed, demanda do poder público uma nova postura em relação à garantia da transparência e da segurança jurídica do processo. No ano passado, o detalhamento dos componentes centrais para a composição da nota final sequer foi apresentado no aguardado edital dos estudantes; quem garante que este ano será diferente? E mais: quem garante que as medidas cautelares aplicadas no ano passado não serão ainda mais graves este ano?

Há, ainda, um elemento adicional que não pode ser negligenciado: a definição tardia ou imprecisa de componentes centrais da metodologia ou, pior, a possibilidade de se alterar o método de correção do exame após a prova já feita, abre espaço para questionamentos legítimos quanto à consistência técnica e à transparência do exame. Portanto, o debate aqui proposto não se resume à forma, mas à própria essência do modelo avaliativo. Quando esses elementos não são claramente apresentados desde o início, enfraquece-se a confiança no processo e limita-se a capacidade das instituições de utilizar os resultados como instrumento de melhoria contínua.

É importante reconhecer que o país dispõe de um dos sistemas de avaliação educacional mais avançados do mundo. Esse patrimônio, no entanto, exige constante atualização para acompanhar a complexidade crescente da área. A introdução de novas modalidades de exame é um passo relevante, mas precisa ser acompanhada de ajustes normativos e operacionais à altura dessa evolução.

O momento atual demanda, sobretudo, coerência entre o avanço do modelo e o aperfeiçoamento das suas regras. O desafio colocado para 2026 é o de garantir que o Enamed seja compreendido, confiável e efetivamente útil para a indução de qualidade exigida pelo Sinaes e o aprimoramento da formação médica. Além disso, é importante que as expectativas do setor responsável por 80% das matrículas de graduação no país não sigam sendo frustradas.


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