CORREIO BRAZILIENSE • 03 de agosto de 2026
Fonte da Notícia: CORREIO BRAZILIENSE
Data da Publicação original: 03/08/2026
Publicado Originalmente em: https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/2026/08/7472476-por-que-cobrar-menos-ja-nao-garante-mais-alunos.html
Janguiê Diniz — diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES); secretário-executivo do Brasil Educação - Fórum Brasileiro da Educação Particular
Durante muito tempo, a dinâmica do ensino superior privado brasileiro parecia obedecer a uma lógica relativamente simples: instituições que ofereciam mensalidades mais baixas ampliavam sua capacidade de atrair estudantes. Essa equação, no entanto, começa a perder força. O preço continua sendo um fator relevante na decisão de matrícula, mas deixou de ser suficiente para explicar a escolha de quem busca uma graduação.
O perfil do estudante mudou. Antes de decidir onde estudar, ele procura compreender se o investimento fará sentido para sua trajetória profissional. A decisão de ingresso passou a considerar um conjunto mais amplo de fatores, como qualidade acadêmica, empregabilidade, flexibilidade da formação, infraestrutura, inovação e experiências oferecidas ao longo do curso.
Essa mudança de comportamento fica evidente nos resultados da pesquisa Cenário de Precificação da Graduação — Brasil 2026, realizada pela Hoper Educação em parceria com a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES). O levantamento aponta que as mensalidades dos cursos presenciais registraram queda real de 4,3% em relação ao ano anterior. A mediana nacional dos valores efetivamente praticados pelas instituições ficou em R$ 835, enquanto na educação a distância alcançou R$ 214.
À primeira vista, esses números parecem contraditórios. Afinal, o setor convive com inflação acumulada, aumento dos custos operacionais e necessidade crescente de investimentos em tecnologia, infraestrutura e inovação pedagógica. A redução dos preços, entretanto, reflete menos uma estratégia comercial e mais uma transformação estrutural do mercado.
O estudante tornou-se mais criterioso. Com maior acesso à informação, compara ofertas, avalia reputações, pesquisa indicadores de empregabilidade e procura evidências concretas de que a formação contribuirá para sua inserção e desenvolvimento no mercado de trabalho. A mensalidade permanece na conta, mas é analisada dentro de uma equação muito mais ampla, em que o valor percebido da formação ganha protagonismo.
Nesse contexto, a precificação deixa de ser apenas uma decisão financeira e passa a refletir o posicionamento estratégico das instituições. Em um ambiente de competição crescente, aquelas que não conseguem demonstrar diferenciais consistentes acabam recorrendo, quase inevitavelmente, à disputa por descontos. Trata-se de um caminho que pode ampliar a pressão sobre a sustentabilidade financeira do setor e limitar a capacidade de investimento em qualidade.
As mudanças regulatórias também contribuem para redesenhar esse cenário. A regulamentação mais recente da educação a distância fortaleceu o crescimento dos cursos semipresenciais, modalidade que combina maior flexibilidade com experiências acadêmicas presenciais mais robustas. Para muitos estudantes, esse formato representa um ponto de equilíbrio entre custo, conveniência e qualidade, o que tende a influenciar a dinâmica competitiva do ensino superior nos próximos anos.
Os efeitos desse novo contexto já aparecem em diferentes áreas do conhecimento. As engenharias, historicamente associadas a mensalidades mais elevadas, registraram uma das maiores reduções de preço da série histórica. Em apenas uma década, a mediana das mensalidades presenciais caiu de R$ 1.743 para R$ 967, refletindo a combinação entre ampliação da oferta, retração da demanda e aumento da concorrência.
Mesmo a medicina, tradicionalmente considerada um segmento menos sensível às oscilações do mercado, começa a apresentar sinais de maior competição. Embora continue sendo o curso com as mensalidades mais elevadas do país, algumas instituições já convivem com vagas ociosas, indicando que nem mesmo a alta demanda garante ocupação plena quando o estudante passa a avaliar outros fatores além da reputação ou do prestígio do curso.
Também não se pode ignorar o impacto da conjuntura econômica. O orçamento das famílias brasileiras permanece pressionado, tornando o investimento em educação uma decisão cada vez mais planejada. Como resposta, muitas instituições ampliaram políticas de bolsas, descontos e condições diferenciadas de pagamento. O desafio consiste em preservar a acessibilidade sem comprometer a sustentabilidade necessária para manter investimentos em docentes qualificados, inovação, infraestrutura e qualidade acadêmica.
Esse novo ambiente concorrencial traz desafios importantes, mas também representa uma oportunidade para o setor. Ao deslocar a competição do preço para o valor entregue ao estudante, cria-se um estímulo permanente à inovação, ao aprimoramento da experiência acadêmica e ao fortalecimento da qualidade da formação. Em última análise, é o estudante quem tende a ser o principal beneficiado.
Os dados da pesquisa mostram, portanto, que o ensino superior privado brasileiro entrou em uma nova etapa. O crescimento sustentável dependerá cada vez menos da capacidade de reduzir mensalidades e cada vez mais da habilidade de oferecer uma formação relevante em um mercado de trabalho em rápida transformação. Mais do que definir quanto custa um curso, as instituições precisarão demonstrar por que ele continua sendo um investimento capaz de transformar trajetórias pessoais, profissionais e sociais.