Por Paulo Chanan "Educação: um contraste entre o Brasil que vota e o que disputa o poder"

ABRAFI • 08 de setembro de 2026

Fonte da Notícia: ABRAFI
Data da Publicação original: 08/09/2026
Publicado Originalmente em: https://www.abrafi.org.br/

*Por Paulo Chanan

Em períodos eleitorais, temas relevantes para o futuro da nação ganham espaço privilegiado na agenda pública. Economia, saúde, segurança, emprego e educação pautam com mais intensidade a imprensa, a sociedade civil organizada e até as rodas informais de conversa. Mas há um questionamento que ainda recebe pouca atenção: até que ponto aqueles que pleiteiam ocupar cargos políticos representam, de fato, a população brasileira?

Quando essa discussão acontece, geralmente é focada em aspectos como gênero e raça. Pouco se fala sobre outra disparidade significativa entre candidatos e eleitores: o grau de instrução. E os números das eleições de 2026 revelam um contraste que merece reflexão.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), dos quase 21 mil pedidos de registro de candidatura apresentados neste ano, 58,59% foram de pessoas com ensino superior completo. Outros 10,55% chegaram à graduação, mas não concluíram. Ou seja: quase sete em cada dez postulantes a cargos eletivos tiveram acesso à educação superior.

Já quando olhamos o perfil de quem votará em outubro, encontramos uma realidade bastante diferente. Apenas 11,36% dos eleitores brasileiros têm ensino superior completo e 5,69%, incompleto. Também chamam a atenção os 21,17% com ensino fundamental incompleto e os 18,2% com ensino médio incompleto. Isso significa que quase 40% dos votantes sequer podem pleitear o acesso a uma graduação sem antes concluir as etapas obrigatórias da educação básica. E ainda há quase 10% de analfabetos ou que, em alguma medida, conseguem ler e escrever.

Aqui é importante fazer uma ressalva fundamental. Ter diploma universitário não torna ninguém mais apto, por si só, a representar a população. A democracia não pode estabelecer barreiras educacionais à participação política, e a pluralidade de experiências, trajetórias e conhecimentos é essencial para a qualidade da representação.

Tampouco se trata de defender que a aproximação entre o perfil educacional de candidatos e eleitores deva ocorrer pela ampliação da presença de pessoas mais ou menos escolarizadas nos dois lados do processo eleitoral. A reflexão que esses números precisam provocar é outra: por que uma parcela tão pequena da população consegue alcançar os níveis de escolaridade mais frequentes entre aqueles que disputam os espaços de poder?

A questão central, portanto, não está na escolaridade dos candidatos, mas na distância que ainda separa milhões de brasileiros das oportunidades educacionais. Essa desigualdade se manifesta no mercado de trabalho, na renda, nas possibilidades de ascensão social e, pelo o que indicam os dados do TSE, também em uma atuação política mais ativa.

Embora não se possa estabelecer uma relação automática de causa e efeito entre escolaridade e participação política, seria igualmente equivocado ignorar que a educação amplia repertórios e oportunidades. Quanto maior o acesso ao conhecimento, maiores tendem a ser as possibilidades de compreender as instituições, acessar informações, conhecer direitos e deveres e participar de maneira qualificada da esfera pública.

É sob essa perspectiva que devemos olhar para a disparidade de instrução entre quem vota e quem busca conquistar a confiança do eleitor. Não precisamos tornar o perfil dos candidatos mais parecido com o atual retrato educacional do eleitorado. Precisamos trabalhar para que o retrato educacional dos brasileiros avance cada vez mais. Isso significa criar condições para que mais pessoas concluam a educação básica, ingressem no ensino superior e tenham a oportunidade de ampliar seus conhecimentos e suas perspectivas.

Esse talvez seja o aspecto mais relevante dos números apresentados. O contraste entre candidatos e eleitores não deve alimentar qualquer discussão sobre quem pode ou não ocupar os espaços de poder. Deve, sim, chamar a atenção para uma desigualdade anterior às urnas: enquanto o ensino superior faz parte da trajetória da maioria daqueles que disputam cargos eletivos, ele permanece distante da realidade de grande parte dos brasileiros.

Mudar esse cenário é uma tarefa que ultrapassa as eleições de outubro. Significa democratizar não apenas o acesso à educação superior, mas as oportunidades que ela ajuda a abrir ao longo da vida. Quanto mais brasileiros puderem avançar em sua formação, mais condições teremos de construir uma sociedade com maior consciência de seus direitos e deveres e mais preparada para participar das decisões que determinam os rumos do país.

Se queremos uma democracia cada vez mais sólida e representativa, precisamos ampliar as oportunidades oferecidas aos cidadãos muito antes que eles cheguem às urnas. Não para estabelecer qualquer hierarquia entre brasileiros com diferentes níveis de escolaridade, mas para garantir que a educação deixe de ser uma oportunidade restrita a uma parcela da população.

Os dados são claros e revelam o quanto o Brasil ainda precisa avançar na democratização das oportunidades educacionais e, por meio delas, na construção de uma sociedade mais justa, consciente e efetivamente democrática.


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