ABRAFI • 28 de setembro de 2026
Fonte da Notícia: ABRAFI
Data da Publicação original: 28/09/2026
Publicado Originalmente em: https://www.abrafi.org.br/
*Por Paulo Chanan
Processos de aquisições e fusões não são novidade no universo da educação superior privada. Há anos, essas movimentações redesenham o setor, resultando em desdobramentos como o fortalecimento e a maior capilaridade dos grandes grupos educacionais. Porém, começa a chamar a atenção um movimento novo e com características próprias: a aproximação entre instituições de médio porte que atuam em uma mesma região.
Essa estratégia resulta no que tem sido chamado pelo mercado de M&A (do inglês, mergers and acquisitions) de “campeões regionais”, ou seja, grupos com presença relevante em determinados territórios. Além de conferir maior escala e reduzir custos operacionais, a solução possibilita que as instituições de educação superior envolvidas não precisem abrir mão de um de seus principais ativos: a forte inserção local.
Levantamento realizado pela InMEC, empresa especializada em fusões e aquisições no mercado educacional, aponta essa consolidação regional como uma das principais tendências para o setor neste ano, seguida pelo foco em cursos de saúde; desinvestimentos estratégicos dos grandes; EAD como alavancador de valor; e maior rigor na due diligence.
O contexto brasileiro ajuda a compreender o potencial desse movimento. Segundo o Censo da Educação Superior 2024, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o país possui 2.561 instituições de ensino superior, das quais 2.244, ou 87,6%, são privadas. Há, portanto, um universo amplo e diversificado de instituições, distribuídas por todas as regiões e de todos os portes. Para se ter ideia, 626 possuem entre 1.001 e 5 mil matrículas, enquanto 133 estão na faixa de 5.001 a 10 mil estudantes.
É justamente nesse ambiente que a consolidação regional ganha relevância. Instituições médias estabelecidas há anos em uma cidade ou região possuem um ativo difícil de reproduzir apenas com investimento financeiro: relacionamento. Conhecem as características econômicas e sociais do território, mantêm interlocução com empresas e empregadores, compreendem as demandas locais por formação profissional e estabelecem relações com o poder público e com diferentes atores da comunidade.
Essa proximidade produz um conhecimento que vai muito além da captação de estudantes. Sua marca, muitas vezes, está associada à própria história da região e à formação de gerações de profissionais.
Grandes grupos nacionais possuem vantagens evidentes de escala, capacidade de investimento e estruturas administrativas robustas. Mas a presença em diferentes mercados não significa, necessariamente, o mesmo grau de enraizamento em cada um deles. É nesse ponto que as instituições regionais possuem uma vantagem competitiva importante.
Quando duas ou três IES com essas características se unem, não ocorre apenas uma soma de alunos, cursos, unidades ou receitas. Há a possibilidade de combinar redes de relacionamento, ampliar a interlocução institucional, fortalecer a presença junto ao setor produtivo e ganhar escala preservando o conhecimento acumulado sobre aquele mercado. Em vez de escolher entre ser grande e ser local, esses grupos buscam as duas coisas ao mesmo tempo.
Essa combinação é particularmente relevante em um cenário no qual as instituições precisam conciliar qualidade acadêmica com sustentabilidade econômica. O ganho de escala pode permitir o compartilhamento de estruturas administrativas, investimentos, tecnologias e competências, enquanto a atuação regional mantém a proximidade que diferencia essas instituições. O resultado potencial é uma organização mais robusta, mas que continua conectada às necessidades do território onde está presente.
Há, ainda, outra dimensão estratégica nesse processo. A InMEC observa que os grupos regionais formados por esse movimento podem, posteriormente, tornar-se alvos de grandes grupos nacionais. A lógica é compreensível: uma instituição isolada oferece determinada quantidade de alunos, ativos, cursos e presença territorial. Um conjunto de instituições já integrado acrescenta escala e uma posição regional mais consolidada.
Isso não significa, contudo, que toda instituição média deva buscar uma fusão ou aquisição, tampouco que o crescimento por consolidação seja o melhor caminho. Cada organização possui história, missão, condições financeiras e estratégias próprias. Processos dessa natureza exigem uma análise criteriosa e compatibilidade entre os projetos envolvidos.
O que merece atenção é o surgimento de uma alternativa entre dois extremos que durante muito tempo marcaram o setor: de um lado, instituições locais atuando isoladamente; de outro, grandes grupos de abrangência nacional. Os campeões regionais apontam para uma terceira possibilidade, baseada na construção de escala a partir do próprio território.
Mais do que crescer, trata-se de transformar a presença regional em força estratégica e geração de valor. E, em um setor cada vez mais competitivo, essa combinação entre escala e pertencimento local pode representar um importante diferencial no movimento de consolidação pelo qual passa o Setor de educação superior privada brasileira.