REVISTA ENSINO SUPERIOR • 28 de agosto de 2025
Fonte da Notícia: REVISTA ENSINO SUPERIOR
Data da Publicação original: 26/08/2025
Publicado Originalmente em: https://revistaensinosuperior.com.br/2025/08/26/semipresencial-para-uma-educacao-agil-conectada-e-humana/
Por Wagner Sanchez*
O semipresencial chega como uma chance de transformar a educação. Não é sobre dividir a carga horária entre encontros presenciais e digitais, mas sobre assumir a responsabilidade de criar uma experiência que una o melhor de cada mundo. O desafio não é operacional, é conceitual: construir um modelo de ensino que dialogue com o mindset digital, que seja ágil na adaptação às mudanças, conectado com a realidade dos estudantes e do mercado, e, acima de tudo, humano em sua essência.
Mais do que uma modalidade liberada pelo MEC, o semipresencial é um chamado para nós, educadores, repensarmos práticas, abandonarmos a comoditização do ensino e colocarmos o aluno no centro de nossas decisões. Essa é a oportunidade de transformar o que poderia ser apenas mais um rótulo acadêmico em um movimento genuíno de inovação pedagógica.
O risco da vala comum
O risco é tratar o semipresencial como um ajuste administrativo, para reduzir custos, flexibilizar agendas ou responder a pressões regulatórias. Isso seria desperdiçar uma oportunidade rara de redesenhar o ensino superior.
Já vimos esse filme antes. Quando a educação a distância foi regulamentada, muitas instituições optaram por oferecer o mínimo exigido, sem repensar modelos pedagógicos, sem ousar, sem realmente colocar o aluno no centro. O resultado foi previsível: cursos engessados, baixa atratividade e uma visão de que o digital era sinônimo de ensino barato e massificado. Não podemos repetir esse erro. O semipresencial não deve ser um meio-termo entre o presencial e o remoto, mas sim um modelo próprio, com identidade e propósito.
O estudante no centro da jornada
Colocar o aluno no centro é uma prática que exige consistência. Significa pensar em cada etapa da jornada acadêmica sob a ótica do estudante: desde o primeiro contato com a instituição, passando pela vivência em sala, nos corredores, nos laboratórios e até na forma como ele é avaliado.
O semipresencial só fará sentido se for estruturado para garantir experiências de aprendizado autênticas, conectadas ao mercado e à vida real. Isso inclui trabalhar com metodologias digitais de aprendizado, como por exemplo o challenge based learning, onde empresas e organizações propõem desafios concretos, e os alunos aplicam seus conhecimentos para resolver problemas de impacto real. É nesse espaço que teoria e prática se encontram e em que o estudante percebe que sua formação tem relevância imediata.
Além disso, conceitos como agile learning e disruptive learning mostram que o papel do professor não é mais apenas transmitir conteúdo, mas atuar como facilitador, mentor e provocador. A educação precisa ser ágil para acompanhar a velocidade das mudanças e disruptiva para romper com padrões que não fazem mais sentido.
Uma educação digital e humana
Digital não pode ser confundido com desumano. Ao contrário: quando bem aplicada, a tecnologia aproxima, personaliza e potencializa a aprendizagem. Ferramentas de adaptive learning, inteligência artificial, plataformas colaborativas e trilhas modulares permitem que cada estudante tenha uma jornada alinhada ao seu ritmo e às suas necessidades.
Mas a tecnologia, por si só, não garante engajamento. O que motiva os alunos é a sensação de pertencimento, de serem ouvidos, de perceberem que sua felicidade e seu sucesso importam. O cuidado com o bem-estar emocional, a oferta de experiências significativas e o suporte integral são tão importantes quanto laboratórios equipados e professores preparados. Uma educação digital só é relevante quando também é humana.
Conexão com o mercado
Outro eixo essencial do semipresencial é sua capacidade de conectar estudantes e empresas. O ensino superior precisa romper com o isolamento acadêmico e se abrir ao ecossistema de inovação, empreendedorismo e tecnologia.
Ao trazer empresas para dentro da sala de aula, seja física ou virtual , criamos oportunidades para que os alunos enfrentem problemas reais e desenvolvam soluções aplicáveis. Hackathons, projetos interdisciplinares, cultura maker e startups acadêmicas não são “extras”, mas componentes centrais de uma formação digital e ágil.
Esse alinhamento com o mercado gera impacto duplo: os alunos desenvolvem competências valorizadas, enquanto as empresas recebem soluções inovadoras que nascem no ambiente acadêmico. É um ciclo virtuoso que fortalece a empregabilidade e a relevância da instituição.
Avaliação como feedback, não como rótulo
Se a modalidade semipresencial pretende ser disruptiva, a forma de avaliar precisa acompanhar essa mudança. Não faz mais sentido rotular estudantes com notas que os definem por um número. A avaliação deve ser contínua, formativa e reflexiva, oferecendo ao aluno clareza sobre seus pontos fortes e suas áreas de melhoria.
Isso significa adotar avaliações que funcionem como mapas de crescimento, não como sentenças definitivas. O aluno precisa enxergar no feedback um caminho para evoluir, e não uma barreira que limita seu potencial.
Ressignificar o papel do educador
Esse novo cenário exige de nós, educadores, a coragem de ressignificar nosso papel. Precisamos abandonar a postura de detentores do conhecimento e assumir a posição de guias, designers de experiências e mediadores de jornadas.
O semipresencial nos desafia a pensar além da sala de aula. Ele exig e domínio de metodologias ativas, compreensão das tecnologias educacionais e, principalmente, sensibilidade para equilibrar rigor acadêmico com cuidado humano. Não basta dominar conteúdos; é preciso inspirar e engajar.
Oportunidade de reconfigurar o ensino
Na modalidade semipresencial podemos seguir dois caminhos: repetir velhos modelos em um novo formato ou desenhar experiências que reflitam o que os alunos realmente precisam e esperam. Se escolhermos o primeiro caminho, perderemos relevância. Se abraçarmos o segundo, formaremos profissionais ágeis, criativos, críticos e capazes de transformar o mundo. Temos diante de nós a chance de redesenhar a educação. Uma educação digital, ágil, conectada e humana.
Não se trata de modismo, mas de compromisso. O futuro não perdoará quem desperdiçar essa oportunidade.
* Pró-Reitor Acadêmico do Centro Universitário FIAP